Francisco Albano Boscatto

"Há duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos homens."

Meu Diário
03/10/2008 17h04
MEMÓRIAS DE UM NETO DE IMIGRANTES ITALIANOS...
             

A história da “Terra do Galo”
 
            Os caxienses contavam que havia aparecido um mágico em Nova Trento, muito famoso em todo o Estado do Rio Grande do Sul, que se propôs a cortar a cabeça de um galo, com um cutelo e, após, por meios cabalísticos e empregando um líquido milagroso especial, a grudaria novamente no corpo do galináceo, fazendo-o caminhar pelo palco do teatro. Diziam, também, que o velho Cine-Teatro Pró-Trento estava repleto de gente no dia do espetáculo. Haviam pagado uma entrada caríssima, só para ver a façanha proposta pelo mágico.
 
 
            Conforme contavam, o mágico colocou o galo sobre um cepo e chamou para o palco o Intendente Municipal e o Delegado de Polícia. Eles deveriam segurar o galo – um pela cabeça e o outro pelo restante do corpo. – e servir de testemunhas da veracidade do fato que iriam presenciar. Pegando o cutelo, bem afiado, o mágico cortou o pescoço do galo, separando a cabeça do corpo. A cabeça tinha ficado nas mãos do Intendente e o restante do corpo nas mãos do Delegado. Após fazer diversos rituais e gestos, acompanhados de sinais cabalísticos, o mágico pediu para que se retirasse do palco por alguns instantes, com a justificativa de que iria pegar o líquido milagroso especial. Logo em seguida, o mágico voltaria para grudar a cabeça no corpo do galináceo. Ao invés disto, ele saiu pela porta dos fundos do teatro e levou todo o dinheiro arrecadado com a venda das entradas. Fugiu com um cavalo bem veloz, deixando os espectadores presentes a esperá-lo, com cara de bobos.
 
 
            A platéia e as testemunhas esperaram mais de 15 minutos, segundo contava o velho Pelizzari, por gozação. Ele era mantovano e amigo de meu avô materno, estabelecido com um hotel em Caxias do Sul. Antonio Maria Melara. Meu avô – também mantovano, proprietário do Hotel União, de Nova Trento -, em pé entre os espectadores, em dialeto mantovano, teria dito: “Cuel Gal li lé piú que mort, lé méi que mel dégui a mi quel pórti a cá, par far um bom brôd” (Este galo ali está mais que morto, é melhor dá-lo a mim, que o levo para casa, para fazer um bom caldo).
 
 
            Para melhor compreensão dos que não entendem o italiano-mantovano, o “que”, escrito acima, deveria ser “che”, e a palavra “dégui” deveria ser escrito “deghi”, bem como a acentuação aposta, para pronunciar certo as palavras do dialeto mantovano.
 
 
            Que o fato não é verdadeiro e que não acorreu é mais do que evidente, pois não me lembro deste acontecimento após a emancipação de Nova Trento. Já contava com 8 anos de idade, naquela época. Também mencionavam no fato a presença do Intendente e do Delegado, autoridades estas que só existiam em sedes municipais. A presença de meu avô, ainda, que faleceu muitos anos antes da emancipação, é mais um indício de que o caso é inverídico. Talvez tenha ocorrido antes da emancipação, quando Nova Trento era o segundo distrito de Caxias do Sul. Se for assim, as maiores autoridades que teriam segurado a cabeça e o corpo do galo seriam caxienses: o subintendente e o subdelegado, cargos de confiança do Intendente de Caxias.
 
 
            O primeiro Intendente Municipal, Cap. Joaquim Mascarelo, e o primeiro Delegado de Polícia, Sr. Osário Belíssimo, deste município recém emancipado, eram políticos argutos e pessoas austeras. Impunham respeito. E eles possuíam esclarecimento suficiente para recusar a proposta do pretenso e desconhecido mágico. Além do mais, uma autoridade que se preze não subiria ao palco para prestar tão humilhante serviço, especialmente na presença de seus concidadãos.
 
 
            Tudo leva a crer que a estória do galo é inverídica e, conforme contavam os mais antigos, foi engenhosamente inventada por um determinado grupo de caxienses, sendo publicada num “jornaleco” semanário de Caxias, denominado “Tagarella”. Deve ter sido por puro despeito e inconformação pela perda de seu melhor distrito. Com a emancipação de Nova Trento, Caxias perdeu grande parte do território e, inclusive, o distrito de Nova Pádua, o melhor produtor de gêneros alimentícios.
 
 
            Por muitos anos, a população de Nova Trento ficava ofendida, revoltada e irritada quando alguém mencionava a estória do galo ou cantava como o faz o mencionado galináceo. Alguns iam às brigas de fato, porém, com o correr do tempo e o esclarecimento havido, a população se deu conta de que não adiantava protestar contra aquela invenção, que já era tida como certa e verdadeira. Como a vida lhes havia oferecido um limão, a melhor maneira seria transformá-lo numa gostosa limonada. Foi o que fizeram. Adotaram o galo como símbolo de nossa cidade. E o que realmente aconteceu, com grande êxito, foi que o galo tornou o município conhecido por todo o Brasil e exterior. Mostrou a nossa bela, limpa, aconchegante e gostosa “URBS”, lugar ideal para se morar.
 
 
            Nos dias hodiernos, aceitamos esta estória como verdadeira, para não prejudicar o mito que muito nos ajudou. Diante do progresso atual, sentimos orgulho de termos nascido na bendita “TERRA DO GALO”.
 

Publicado por Francisco Albano Boscatto em 03/10/2008 às 17h04
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